Diário de Bordo #7
Vou-vos ser honesta, não quero escrever este relatório. Não quero colocar por escrito o que o meu cérebro se recusa a assimilar, o que parte de mim não quer admitir. Está a acabar. Uma parte tão grande da minha vida, na verdade, a minha vida toda ao longo destes três meses, tudo o que construi, tudo o que conheci e vivi está a chegar a um fim.
E é um fim agridoce, porque é um fim que eu ainda não me sinto preparada para viver. Chegar a uma meta que parece ter sido cortada antes do estimado. Claro que sinto falta de Portugal e de tudo o que deixei para trás, mas a verdade é que sentirei tanta ou mais saudade do que agora deixo. Porque para Portugal haveria sempre de voltar, para aqui, talvez nunca mais….
Deixar-me-ei de lamechices até ao final deste relatório e contar-vos-ei o fim de semana incrível que tivemos em Dubrovnic! Começou logo com o incrível facto de a Croácia amar ter os autocarros todos atrasados e dar zero explicações! Ou seja, fiquei em ânsia 30 minutos a achar que tínhamos perdido o autocarro. Porque o que tentámos apanhar – o que estava a horas na plataforma indicada – disse-nos que não era o nosso e mandou-nos sair de uma maneira nada brusca… Mas pronto, depois de várias crises existenciais e minutos que pareceram horas o nosso autocarro finalmente gracejou-nos com a sua presença.
Depois, para melhorar, quando finalmente chegámos ao nosso destino a Laura já não tinha bateria e eu encontrava-me com míseros 20 porcento.
Honestamente, não sei como chegámos ao nosso apartamento alugado! Que, aviso já, se encontrava no meio de imensas casas e com zero indicações de que era um apartamento alugado!
O senhor perguntou à Laura se ela era a portuguesa que tinha feito a reserva e eu, como me encontrava atrás, não ouvi este pedaço importante da conversa, então quando o senhor nos começou a guiar para dentro de uma casa desconhecida eu entrei em pânico a achar que íamos ser raptadas!
Na minha cabeça, como o apartamento não tinha nada lá a indicar só estávamos a entrar numa casa aleatória sem sabermos se era realmente o sítio!!! Sim, eu vejo demasiados filmes de crime!
Depois de conferir que não íamos morrer, ou seja, stalkear as reviews online – sim eu sei nada dramática – finalmente pude aproveitar a viagem!
Fomos nadar a umas grutas e foi das experiências mais lindas que já tive o privilégio de viver! Uma das grutas – a Blue Cave – tinha o chão que brilhava num tom de azul lindo! Mas essa nem foi a melhor experiência! Foi a gruta onde o meu coração passou a viver depois de me ter saído pela boca! Uma gruta que tínhamos literalmente de passar de lado e nadar debaixo de água porque não havia espaço suficiente para passar de qualquer outra maneira!
Juro-vos que a Laura gravou um vídeo assim:
Laura: Que sítio lindo! Uau!!!!
Eu: Ok, não morremos, está tudo bem, não vamos morrer!!!
Again, nada dramática!
O resto do dia foi tão emocionante quanto a manhã! Andámos de teleférico e fomos a um museu de fotografias acerca da guerra que a Croácia enfrentou não há tantos anos!
O segundo dia foi praia, praia, praia! Quem diria que eu iria começar a aceitar essa tortura tão tranquilamente!
O resto passou tão rápido que mal pude acompanhar!
E agora, a dias do fim, sinto um aperto no peito quase catártico! Já aceitei o facto de que não vou acordar todos os dias para apanhar o autocarro que se tornou a minha segunda casa de tanto tempo que lá passo dentro, já aceitei que vou poder finalmente entender o que está escrito nos rótulos, cartazes e sinais, já aceitei o facto de que vou abandonar o sítio que me fez tão feliz.
Na verdade, agora que escrevo, tenho a certeza que tudo o que acabei de dizer é uma completa mentira. Não aceitei nada o facto de que vou voltar a andar de comboio todas as semanas, que já não vou poder comprar Jana ou Cockta e definitivamente não aceitei o quanto me vai custar voltar a Portugal.
E, se for honesta, não aceitei o quanto me vai custar deixar de estar com a Laura todos os dias. Quer eu tenha querido ou não ela tornou-se uma parte importante da minha vida aqui, alguém em quem posso confiar e que sei que nunca me julgaria… bem… não me julgaria muito! Alguém que trouxe partes de mim ao de cima que estavam bem enterradas e que me fez ser mais destemida e mais confiante.
Que me ensinou a deixar a vergonha de lado e a dançar no autocarro, que me convenceu a saltar um muro para ir para a praia, que me fez não morrer à fome e que me fez perceber o quão bom é sermos fiéis a nós mesmos! Então, se tenho alguém a quem tenho de agradecer por esta experiência, seria a ela. Obrigada, Laura, por tornares estes três meses tão inesquecíveis!
Ps: Prometo que assim que aterrar o avião verei o primeiro episódio de Banana Fish.
Diário de Bordo #6
Vocês têm daquelas semanas que vos deixam com uma vontade imensa de viver? Que vos fazem questionar o que é a vida e como é realmente aproveitá-la? Para alguém que se considera uma pró em colocar em standby a experiência que é realmente viver ao máximo, estas duas semanas foram a lembrança de que a vida vale a pena ser vivida.
Começo já por pedir desculpas pela lamechice que vão ser os próximos parágrafos. Talvez seja o cansaço, a direta que fiz ou simplesmente a nostalgia que se começou a instalar em mim com o passar dos dias, mas a verdade é que já sinto falta da Croácia e de tudo o que esta me proporcionou ao longo destes três meses.
Sei que é normal que, para o melhor ou para o pior, sejamos moldados por quem vamos encontrando ao longo da vida, que sejamos fruto da mistela que são as experiências que vivemos, as pessoas que conhecemos e as escolhas que decidimos tomar. Olho para a pessoa que sou hoje, para a pessoa que fui antes de para cá vir e percebo a mudança que tomou conta da minha vida.
Esta semana vou falar acerca de duas experiências que me fizeram repensar um pouco a pessoa que fui e sou.
Fui à praia nadar à noite. Agora vocês devem estar a perguntar… e? O que é que há de estranho nisso? 1 – É praia. 2 – É noite. 3 – Tenho quase a certeza de que o caminho para a praia está amaldiçoado por fantasmas. Ok agora mais a sério, enquanto nadava e aproveitava para observar as estrelas percebi o quão livre me sinto desde que vim para aqui. O quão calmo é aproveitar simplesmente o momento, sair da zona de conforto e simplesmente viver.
Há uns meses eu nunca na minha vida teria sequer ponderado colocar os pés na praia à noite, muito menos nadar nela. Claro que coloco toda a culpa na Laura!! Tem sido ela a maior incentivadora deste meu novo comportamento. As suas ideias malucas quase todos os fins de semanas têm-me ajudado muito a ser uma pessoa mais feliz e fazem a vida na Croácia bem mais divertida.
Por falar na Laura, tive imensas saudades dela esta semana! Porquê, perguntam? Isso leva-me a contar-vos a segunda experiência que marcou as minhas semanas! Fui a Inglaterra para a graduação do meu tio!
Quando ele me convidou fiquei super feliz! Como ele vive longe não tenho a oportunidade de estar com ele tanto quanto gostava, mas isso não o faz menos importante na minha vida! Tanto ele como a minha prima, com que estive nestes últimos dias! Adoro os dois e não exagero quando digo que vou para sempre levar esta viagem no coração.
Em primeiro lugar: as graduações em Inglaterra são super UAU! É literalmente como todos os filmes descrevem. E foi tão bom poder ter feito parte deste marco tão importante na vida de alguém por quem tenho tanta estima.
Visitámos Manchester e Liverpool, duas cidades com um encanto e vivacidade únicos! Para mim passear é a melhor maneira de passar férias! Chegar ao hotel no final do dia com as tuas pernas a pedirem reforma antecipada é das melhores sensações de sempre!
Eu e o meu tio adoramos os Beatles então foi como dar doces a crianças! Fizemos o Magical Mystery Tour e acabamos a noite a ver um tributo aos Beatles dentro do Cavern Club, o primeiro clube em que eles tocaram! Além disso fomos ver Something Rotten num dos dias! Acho que nunca vos disse, mas sou fissurada em musicais! Principalmente este! Então posso afirmar sem nenhuma dúvida que foi dos momentos mais mágicos da minha vida!!
Porém não foi só os sítios que tornaram esta viagem uma das mais icónicas da minha vida! Eu genuinamente não posso agradecer o suficiente pela companhia e o quão feliz me senti nesses dias. Que venham muitos mais!
Bem acho que já me alarguei demasiado, adeus ou como dizem em Inglaterra, Cheers Mate!
Diário de Bordo #5
Estas duas semanas foram pura loucura! Parece que quanto mais tempo passa mais gritante fica a vontade de fazer mais, de poder soltar tudo o que me prende e aproveitar como sei que consigo!
O calor tem acabado comigo! O meu eu do passado bem que se pode deleitar com o facto de acordar cedo ser a única parte má do seu dia! Agora tenho de acordar cedo e de enfrentar o deserto até chegar à única fonte de frescura: o trabalho! Apenas para descobrir que era tudo uma miragem e que o estúdio também se encontra em chamas.
A sério! Adorava ter uma conversa com o ser superior que achou que colocar estas ondas enormes de calor era uma boa ideia! Sinto-me a derreter a cada passo que dou! No entanto, desenvolvemos uma tática muito secreta e inovadora: deixar o ar condicionado ligado todo o dia para termos a sensação de estar a viver no Ártico! Melhor ideia ever!!!
Ok, focando no tema em questão, a razão pela qual vos estou a escrever novamente! Como disse anteriormente, estas duas semanas foram uma completa loucura! Visitámos sítios novos, fomos atacadas pelo capitalismo e deleitamo-nos com a maravilha gastronómica que é o kebab!
Então! Decidimos deixar o nosso apartamento e ir visitar Trogir, uma pequena cidade ao pé de Kastela! Entramos no museu de graça e lá encontrei o Marquês de Pombal da Croácia (Bem pelo menos no que toca ao cabelo). É uma cidade absurdamente linda e fomos adotadas por um pequeno gatinho preto, que acabou por nos abandonar em prole de uma iguana.
Acabámos por lá jantar num daqueles restaurantes que se paga para respirar. O senhor deve ter olhado para nós e decidido que não eramos dignas de tal serviço, afinal, para lá entrares precisas de saber o nome de todas as carnes que existem no planeta e eu e a Laura definitivamente faltámos a essas aulas. Depois de termos sido humilhadas por não sabermos a diferença entre um T Bone e o que quer que fosse a outra opção, de pagarmos 7 euros numa garrafa de água e de ter entornado metade dela para a minha mala, decidi que restaurantes chiques não são a minha cara. Pelo menos a comida estava saborosa!
Voltámos ao centro comercial de Split e é sem dúvida um dos meus sítios favoritos! A – Tem ar condicionado! B – Tem uma livraria e árcade! C – É o único sítio em Split que tem ar condicionado! Fomos ao árcade e juro que não me ria assim há muito tempo! Ganhei num jogo de motas mesmo só tendo percebido onde se encontrava o botão de acelerar a meio da partida e gastei uns 5 euros naquelas máquinas de ganhar peluches. Desta vez o capitalismo ganhou e eu decidi nunca mais jogar joguinhos de máquina. Aquilo é viciante!! Mas conhecendo-me sei que tenho o pior azar do mundo, por isso contento-me a ganhar no jogo do disco!
Voltámos a ir à praia e acreditem quando vos digo que a água estava boa! Sim, eu achei a água boa! Vou ficar mal-habituada quando voltar a Portugal! Lá se vai ainda mais a minha vontade de ir à praia! Pelo menos consegui adicionar mais pedras à minha mais recente coleção!
No trabalho temos um novo membro! A Hanna!! Ela é supersimpática e vem da Alemanha! Se houve alguma coisa que aprendi com ela até agora é que nunca na minha vida quero aprender alemão! Que língua difícil!
Para finalizar, a Croácia mudou e moldou muito do que sou, tornando-me mais independente e segura de mim mesma! Ensinou-me o que é viver sem estar em constante adrenalina! E, aparentemente, despertou um lado nacionalista que não sabia que tinha dentro de mim. Para dar contexto, odeio futebol com todo o meu ser! Nada contra o desporto em si, só não é a minha praia! Então não imaginam a minha surpresa quando dou por mim aos berros no apartamento, a celebrar os golos de Portugal e a agir como se soubesse mais que o arbitro. Pelo menos ganhámos, mas tenho a certeza de que os vizinhos nos julgam loucas.
Vejo-vos daqui 15 dias, com novidades do próximo jogo: Croácia vs Portugal. O universo gosta mesmo de uma boa piada.
Diário de Bordo #4
Não acredito que já passou mais de metade! Ainda ontem aqui cheguei! Já apanhei totalmente o ritmo do que é viver como “adulta” e, até agora, diria que me tenho safado bastante bem!
Fui ao cinema ver TADC Last Act!! Sozinha! Acho que foi a primeira vez na minha vida que o fiz.
Estava à espera desta estreia desde que foi anunciada e marquei estes bilhetes no dia em que cá cheguei, mesmo não sabendo para o que ia. Seria o filme dobrado em croata? Teria legendas em croata? Não importava, só sabia que queria ir, que tinha de ir! E fui! Por sorte os deuses tiveram pena de mim e tudo foi completamente em inglês.
Ok, para dar contexto, a Croácia pára todos os domingos. Nada está aberto e parece que todas as pessoas desaparecem para a praia, deixando a cidade inabitada. Perfeitamente digno de um universo pós-apocalíptico!
Então não imaginam o meu pavor quando vi o centro comercial totalmente fechado. Não havia uma única alma num raio de dois quilómetros. Obviamente, como a pessoa racional que sou, comecei a entrar em pânico. Estava entre o: desesperada pronta para entrar por ali adentro e o chorar. Opções que não precisei colocar em prática pois, vários minutos depois, apareceu finalmente alguém e eu, como a pessoa corajosa que sou, fui atrás delas e rezei para que o segurança não quisesse falar comigo.
Nunca vi um centro comercial tão deserto na minha vida. A única coisa que estava a funcionar eram os cinemas e o McDonalds/Burguer King. Até o KFC estava fechado! Senti-me subitamente num daqueles filmes de terror de low budget que passam à tarde. No fim deu tudo certo e pude aproveitar uma das melhores experiências cinematográficas! Aqui, as pessoas são respeitadoras não falam durante os filmes. Que paraíso!
Além disso, durante os trailers, pude colocar em prática o meu croata e perceber uma a cada cem palavras que eram ditas. Pelo menos descobrir há muitas palavras parecidas ao português!
Por falar em aprender palavras, a senhora que estava à minha frente na fila das compras no outro dia conversava animadamente com o atendente em inglês, explicando-lhe que adorava a língua, mas ainda estava a aprender. O atendente parecia muito feliz por alguém estar a fazer o esforço e a senhora questionou-o se podia perguntar-lhe como se dizia uma palavra. Pus me logo atenta, feliz de estar prestes a aprender uma palavra nova, quando a senhora me solta a seguinte frase.
– How do you say thank you? – Literalmente das únicas palavras que já sei! Fiquei super desanimada, mas pelo menos aprendi que eles aqui também têm sotaques de acordo com a região e parece-me que o de Split é o mais fácil.
Tenho também dado alguns passeios noturnos. Digo-vos que estar no meio de uma “floresta” escura onde não se ouve um som, pode ser tanto relaxante como amedrontador. Senti-me, por breves momentos, nas backrooms! Porém estar a ouvir “Roaring On” nos fones acabou um pouco com essa ilusão.
Tive de cozinhar pela primeira vez desde que vim para aqui e acreditem, estou desejosa que a Laura volte. Além de apreciar a companhia dela, detesto mesmo cozinhar. Se me pedissem para fazer 50 exames de matemática ou cozinhar por um mês inteiro escolhia o cozinhar, não sou assim tão masoquista, mas perceberam o que eu quis dizer. Eu e a cozinha somos inimigas declaradas e, mesmo que estejamos em época de paz mal posso esperar para lhe declarar guerra novamente.
A minha carreira na culinária acabou cedo, mas, pelo menos, não peguei fogo à casa. Se bem que teria sido uma história muito mais divertida de contar!
Estou neste preciso momento a ouvir a máquina de lavar a apitar, avisando-me que já acabou o seu trabalho. É a minha deixa para me despedir! Até para a semana!
Diário de Bordo #3
O que dizer destas duas semanas?
Recebi o meu uniforme de trabalho e, sou finalmente, um membro oficial da equipa de Video-Photo. Os nossos chefes são as melhores pessoas do planeta e levaram-nos para filmar num dos sítios mais incríveis que já coloquei os pés, Krka. Juro-vos, devia ser considerado uma das sete maravilhas do mundo moderno de tão lindo que é.
Vi pela primeira vez um cisne bebé e digo-vos que todos os livros infantis mentiram, ele era a coisa mais adorável, fofa e maravilhosa de sempre. Vimos também um sapo e, acreditem, apanhei um susto quando, no meio do mato, vejo uns pequenos olhos a julgar-me por entre a vegetação. Gritei tão alto que as pessoas ao meu lado se assustaram, mas no final valeu a pena.
Passei outra vergonha no talho, mas desta vez correu melhor do que esperava. Estava encarregue de fazer o pedido à senhora, porém depois da última vez acobardei-me, decidindo escrever no google tradutor e entregar-lhe o telemóvel. Estava tão nervosa que, se a senhora me roubasse o telemóvel, eu deixava-a e ainda lhe entregava a minha carteira como brinde por a incomodar. Foram os 5 minutos mais constrangedores da minha vida… mas no final ela foi uma querida e entregou-me o pedido com um sorriso. Tentei dizer hvala (Obrigada) mas tenho quase a certeza de que não foram essas consoantes que saíram da minha boca.
Fomos à praia mais duas vezes e, não sei que pactos demoníacos é que a Laura anda a fazer, mas conseguiu convencer-me a ficar na água mais do que 20 minutos. Um record digno do Guiness devo avisar, já que nem a minha família o consegue fazer. Talvez a Croácia esteja mesmo a mudar a minha pessoa. Ou talvez a Laura tenha mesmo contactos supernaturais.
Por falar em supernaturais, depois de vermos um dos piores filmes da nossa vida decidimos dar uma pausa ao nosso cinema e passar para animes. Uma escolha sábia e honestamente muito divertida. Sempre fui mais pessoa de séries de qualquer das formas!
Outro recorde do Guiness foi o facto de termos encontrado uma loja com frases explicativas em português no centro comercial de Split. Senti-me uma verdadeira portuguesa quando quase gritei no meio do shopping ao avistar as palavras que eu já tinha quase esquecido o que significavam. Descobri imensas marcas que nunca sequer tinha ouvido falar, mas pareceu a coisa mais normal que fizemos em semanas. Só ir ao centro comercial comprar roupa e comer McDonalds.
Lembram-se de ter dito que o talho foram os 5 minutos mais constrangedores da minha vida? Menti… Este sábado é que foi!
Tínhamos mandado vir pizza e batatas fritas, uma combinação um tanto quanto questionável, mas definitivamente deliciosa, quando nos apercebemos que estava quase na hora de esta chegar. Esperámos, esperámos e esperámos mais um pouco, mas nada. Trinta minutos passaram e nem uma batata frita à vista!
Decidimos ligar para o sítio para perguntar o porquê da demora e, cheia de medo, lá decidi falar. Pelas minhas histórias devem ter percebido que eu detesto falar com desconhecidos. No entanto aqui estava eu, à espera que o homem do restaurante atendesse. A conversa foi mais ou menos assim.
– Hello, do you speak English?
– No.
– Ah… I… Uhmmm – Eu ia continuar a falar em inglês, mas a resposta dele apanhou-me tão desprevenida que nem sabia para onde me virar. Olhei para a Laura. A Laura olhou para mim. E durante uns 20 segundos ninguém falou.
O senhor acabou por passar para alguém que “percebia inglês” e ficámos a entender que ninguém se tinha lembrado do nosso pedido.
– Vêm em 15 minutos! (Tradução para 50 minutos)
Pelo menos a pizza era boa e pude riscar algo da minha bucket list!
Não acredito que já passou um mês. Não acredito que só passou um mês. A Croácia tornou-se uma casa para mim e estou tão grata por ainda ter tanto para viver e tanto para contar!
Até o próximo diário de bordo!
Diário de Bordo #2
Boas notícias! O meu vocabulário em croata aumentou drasticamente ao longo destas duas semanas. Agora, em vez de saber uma palavra em croata sei quatro! Além disso, aprendi que a maioria das pessoas aqui não falam inglês, logo a melhor maneira de comunicar é através de mimica ou do telemóvel.
Estas semanas passaram a correr, se bem que se pode dar ao facto de a minha vida correr com elas. Entre trabalho, ginásio, passear e tarefas quotidianas resta poucos momentos para pensar que o tempo está a andar tão rápido. Honestamente, a parte menos agitada do meu dia são os momentos que passo no autocarro, seja a ler, a ouvir música ou a conversar com a minha roommate, a Laura.
Por falar na Laura, esta convenceu-me a ir ao sítio mais tenebroso de sempre, a praia. E até me fez entrar na água! Se tiver de ser honesta, até foi bastante divertido. A Croácia é um sítio lindo, percebo-o cada vez que saímos para photoshoots com os nossos chefes, cada vez que edito ou simplesmente cada vez que vou dar um passeio.
Ganhei o hábito de ir passear todos os domingos, gosto de ouvir música enquanto observo o espaço que me rodeia. Foi assim que descobri um dos sítios mais bonitos de Kastela!
Estava a andar sem direção quando me apercebi que seguia um caminho desconhecido. Não estava sozinha, um casal andava descontraído à minha frente. Depois de ter andado uns bons 30 minutos em frente esse casal vira numa espécie de floresta. Decido ligar o meu modo de Stalker e sigo-os! Deparo-me com uma pequena vila costeira, a mesma vila que aparece cada vez que pesquiso Kastela no Google.
Simplesmente lindo! Acabei o dia a ler beira-mar. A pior parte foi voltar para trás, já que estava quase sem bateria e não tinha rede. Por momentos pensei mesmo em fazer da pequena floresta o meu novo lar! Mas lá me encontrei com o meu péssimo sentido e orientação.
Abracei um novo hobbie, o ginásio. Honestamente não sei o que passava na minha cabeça quando ponderei ir. Posso só comentar que o primeiro dia foi sem dúvida uma experiência sem igual, interpretem como quiserem. Pelo menos a Laura estava comigo e não tive de sofrer sozinha.
Outra peripécia foi pedir carne no talho. Nunca mais meto os pés naquele supermercado. Só sei que a certo ponto o homem estava a olhar para mim e eu a olhar para ele, em total confusão. Sei que repeti pig algumas vezes, em frases que não tinham qualquer sintaxe. Parecia que o meu inglês tinha morrido completamente! Pelo menos pude sair da minha zona de conforto e enfrentar o meu medo de exposição. Tenho-o feito muitas vezes desde que vim para aqui.
O trabalho é bom, os nossos chefes são muito simpáticos e confiam em nós, dando-nos uma grande autonomia.
À noite, eu e a Laura costumamos sempre ver um filme ou o episódio de uma série, o que honestamente me faz reconectar um pouco com a minha área. Já não mantinha o hábito de assistir alguma coisa há uns bons meses. Na verdade, não me lembro da última vez que assisti uma série ou um filme só porque sim. Tem sido bem divertido!
Resumindo e baralhando, têm sido umas semanas agitadas, mas muito divertidas! Sinto que parte de mim deixou a antiga Matilde em standby. Acho que deixar toda a tua vida para trás durante 3 meses tende a ter esse efeito.
Gosto desta nova versão de mim, consigo finalmente agarrar no papel e caneta e escrever a minha história, dar-lhe um novo título. Tornei-me outra vez a personagem principal de uma vida que me pertence.
Que venham novos capítulos!
Diário de Bordo #1
Fazer 18 anos e, seis dias depois, encontrar-me enfiada num avião durante sabe-se lá quantas horas, para chegar a um apartamento que chamarei meu durante três meses, não estava nos planos de uma Matilde mais nova.
A verdade é que nem sei por onde começar a contar a aventura que foi chegar onde estou hoje. Na Croácia. A comer gelados que não preciso de pagar e a andar pelo sítio que jurei nunca ir mais que necessário… a praia!
Sempre pensei que estes primeiros dias seriam os mais difíceis, ajustar-me a um país que não é meu, uma língua que não falo e pessoas que não conheço… simplesmente viver a vida adulta! Mas a verdade é que foi algo quase natural.
Claro, é estranho pensar que ir às compras semanalmente faz parte da minha rotina. Ou que tenho de lavar a roupa com uma máquina inventada A.C. Ou que preciso de aprender a mexer numa app em croata para navegar melhor nos transportes.
No entanto, não poderia estar mais feliz.
Estou a fazer algo que gosto, num país que passei também a gostar. As pessoas são simpáticas, a comida é boa e a beleza deste sítio faz-te querer só sentir, viver o momento.
Tive muita sorte em estar nesta aventura com alguém que gosta de cozinhar, já que os meus dotes culinários são zero, então dividir tarefas tem sido extremamente fácil. Quem sabe um dia não me dedico à cozinha, mas por enquanto contento-me a lavar a loiça!
Durante estes dias, conseguimos alcançar muito! Aprendemos a andar nos transportes públicos apenas para nos perdermos no segundo dia, aprendemos que uma lata de atum custa 3€, logo deve ser evitada a todo o custo, e aprendemos que as pessoas aqui detestam tupperwares e recusam-se terminantemente a vendê-los (Tivemos de ir a 3 supermercados só para os encontrar).
Brincadeiras à parte, foram uns dias que passaram demasiado rápido e, entre reuniões e estágio, pude aproveitar um pouco do que a cidade tem para oferecer. Split é pequena e tranquila, o oposto do que estou habituada e uma ótima maneira de fugir à rotina.
Sempre pensei em mim como uma linha plana. Uma linha que, para o mal e para o bem, se mantinha no seu caminho. Tenho a impressão de que estes três meses vão dar à minha vida as curvas e contracurvas que esta precisa.
Acabo este relatório com a única palavra que sei dizer em croata, Voda (Água). Isso e Pašticada, mas não sei se comida realmente conta como “aprender uma língua nova”. Espero poder acabar estes meses a saber falar um pouco mais, mas, por enquanto, despeço-me com um simples adeus.
Que venham mais aventuras 🙂

























































































